Eu passei anos tentando dar um nome mais bonito para a minha timidez. Dizia que eu era reservado, discreto, seletivo, como se isso resolvesse o incômodo de não conseguir me aproximar de ninguém do jeito que eu realmente queria. Por fora, eu até funcionava... eu conversava, ria, respondia com educação; mas por dentro eu vivia com a sensação de que qualquer passo a mais era um risco alto demais.
Foi nesse ponto, quando eu já tinha normalizado a minha própria solidão, que eu assisti a 'Porque Esta é a Minha Primeira Vida'. E eu não digo isso como quem tenta vender a ideia de que um dorama resolve a vida de alguém, mas sim como quem reconheceu, pela primeira vez, uma história que não tratava amor como espetáculo e nem timidez como charme.
O dorama tem um jeito único de encarar pessoas que não conseguem ser expansivas, que precisam de tempo, que vivem com o coração aceso por dentro e a expressão contida por fora. Ele não me ensinou a virar outra pessoa, mas me fez enxergar a pessoa que eu já era, só que com menos culpa de ser quem sou.
Muita gente torce o nariz quando vê alguém falar sobre um dorama de casamento por contrato, enquanto outros amam. Mas 'Porque Esta é a Minha Primeira Vida' vai além desse estereótipo, apesar de ser o ponto central da trama, e, em vez de usar essa fórmula para correr até o final feliz, a série faz o contrário.
A história acompanha Nam Se-hee, um homem comum, metódico e fechado, e Yoon Ji-ho, uma roteirista tentando se reerguer depois de uma sequência de frustrações, que acabam dividindo a mesma casa e, posteriormente, se casando por contrato falso. Só que esse acordo vira o espelho perfeito para as inseguranças deles e, embora vivam um romance, também lidam com questões sobre trabalho, expectativas, amizade e pressão social.
O Nam Se-hee foi essencial nessa minha jornada porque ele é tímido de um jeito que não costuma existir nas comédias românticas. Ele não é aquele protagonista que trava e, por isso, fica fofo: ele é alguém que escolheu o silêncio como forma de proteção. Ele fala pouco, mede as palavras, organiza a vida para diminuir o caos, e tudo isso parece até com frieza em um primeiro momento.
Só que o dorama faz questão de mostrar o outro lado que quase ninguém vê ou sabe interpretar quando encontra alguém assim na vida real. O silêncio dele não é falta de sentimento, mas sim medo do que pode acontecer quando o sentimento sai do seu controle. Eu também já confundi autocontrole com maturidade e já achei que ser neutro era um jeito seguro de existir. Eu também já preferi ser o 'tranquilo' do que arriscar ser o vulnerável. E o problema é que, quando você vive assim, você se afasta do que poderia te fazer bem.
Assistindo a este dorama, eu entendi que não adianta eu exigir que alguém adivinhe as intenções que eu não coloco no mundo. Para isso, ninguém precisa fazer uma declaração dramática, basta apenas dar sinais honestos. É sobre conseguir dizer, de um jeito simples, que eu me importo, que eu quero estar ali, que eu só preciso de um tempo a mais para não me perder de mim. Ver o Nam Se-hee tentando conviver me mostrou que vínculo é uma construção diária.
É importante confessar que nada mudou como um passe de mágica depois que eu terminei o dorama. Eu não acordei confiante, solto, pronto para conhecer pessoas como se isso nunca tivesse sido difícil. Mas eu parei de romantizar o meu sumiço, comecei a reconhecer minha própria personalidade, dizer que eu gosto, que eu fiquei nervoso, que eu preciso de tempo, comecei a expressar o que eu quero.
Eu sempre achei que, para ser amado, eu precisava acompanhar o ritmo dos outros. A série, bem como boas sessões de terapia, me mostraram outra coisa. No fim das contas, 'Porque Esta é a Minha Primeira Vida' me ensinou a me relacionar como eu sou, sem me esconder atrás de versões ou da minha própria timidez - e quando eu penso que esta é a minha primeira vida, como o título insiste em lembrar, eu entendo por que essa história mexeu tanto comigo.